Realidade ?

Após alguns anos tive o prazer de me deparar com a possibilidade de assistir novamente o então cult, filme do diretor Richard Kelly, produzido em 2001, Donnie Darko, e o fiz pela quarta vez. O filme do adolescente problemático, que duvida de sua realidade e lucidamente se rotula alienado (?), cria uma atmosfera atemporal, através do coelho que se diz viajante do tempo e esbarra em conceitos da física quântica, e que perambula por suas visões lhe direcionando a acontecimentos que ultrapassam de longe o contexto de ‘coincidências’, mesmo sendo mascarados por atos de vandalismo, que ao decorrer do filme entendemos que não se trata disso, está muito além o significado de suas ações, se nota a alusão ao descontentamento das instituições do sistema escolar conformista, celebridades falsas que levam ao fundamentalismo religioso, a falsa busca da sociedade em sanar suas melancolias através de psicoterapia, remédios e outras drogas. O filme também aborda de forma curiosa a obra de Lewis Carroll, Alice no país das Maravilhas, não somente através da figura do coelho, de sua visão fronte ao complexo simbolismo do espelho em sua superfície líquida, analogia esta que remete a ‘magia’ e premonição do futuro, mas principalmente seu tédio e melancolia, comparadas a da Alice, que o levam a expandir sua consciência para a possibilidade de universos paralelos em diferentes níveis de realidade, tempo/espaço. Também não posso deixar de comentar o simbolismo gnóstico da repetitiva imagem do olho que aparece no filme como a figura desenhada no quarto de Donnie ou o olho ferido de Frank, o coelho, segundo o dito do filósofo romano Plotino: ‘nenhum olho está capacitado a ver o sol enquanto, de certa maneira, ele mesmo não se tornar o sol’. Deduzindo que o sol, seja fonte de luz, e a luz um sinal de inteligência e do espírito, a imagem representa o conhecimento mantido aprisionado no mundo material, mantendo-nos cegos, nos fazendo necessitar da gnose para ‘abrir nossos olhos’.


Fazendo uma rápida analogia do roteiro nota-se que continua atual, e talvez, hoje, com melhor propriedade ainda de compreensão, pois ao decorrer dos anos fica mais notório o sentimento de inquietação da humanidade neste período em que vivemos, o qual julgo extremamente necessário para que aconteça a mudança de consciência humana neste planeta, que para mim é inevitável e que já se iniciou. Todos os seres humanos deste planeta, de todas as classes sócias, níveis intelectuais, de qualquer crença, hora ou outra, se perguntam a importância do que estamos vivendo, questionamos o rumo de nossas vidas, se estamos felizes, até se realmente compreendemos o que é felicidade, qual a importância dos nossos corridos e fúteis dia-a-dia, nossa necessidade pelo ‘ter’. Se na verdade enxergamos a realidade como ela é, ou vivemos uma fantasia, que ao meu ver deve ser providencial a poucos indivíduos, humanos ou não, por algum motivo que nossa necedade não nos permite nem ao menos esbarrar. Tenho a crença que se tivéssemos ferramentas e intelecto para nos aprofundar nestas questões a conclusão não seria nada boa, mas por hora tudo ainda é apenas especulação e dúvidas, com pouquíssimas provas tangíveis, nossa ignorância foi muito bem arquitetada a milênios.
Imaginamos, de maneira individual (ainda), o que poderíamos fazer para melhorar isso, um novo trabalho, uma nova casa em um lugar diferente, a prática de um esporte, uma nova companheira ou companheiro. Claro, nenhuma destas atitudes irá sanar, nem um pouco, o sentimento de insatisfação, inquietação e vazio que cresce exponencialmente dentro de cada um de nós, muito pelo contrário, será um motivo a mais: a frustação pela tentativa falha. Mas acredito piamente que esta própria decepção se tornará mais um catalizador para termos atitudes futuras cada vez mais eficazes em relação a isto. É fato que a humanidade vive uma realidade de pensamentos e valores completamente distorcidos, isto acontece por uma ‘imposição de consciência’ proposital, causada pelos verdadeiros dirigentes deste planeta, os quais estão bem acima de quaisquer governos e o fazem para que continuemos ignorantes e não percebamos o que realmente importa, que é nosso desenvolvimento e aprendizado, não apenas como indivíduos mas, principalmente, como sociedade, pois, claro, nos tornaríamos uma ameaça, mesmo estando nós infinitamente abaixo deles em termos de consciência e tecnologia, e sem nem ao menos chegar perto da verdadeira realidade do que acontece por trás das cortinas deste teatro superficial que é a vida que vivemos.

Glauco AC
29.02.2016

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